quinta-feira, 14 de julho de 2011

O ANGUSTIADO BÉRGSON

Daniel Dutra Um


Era abril de 1990. Bérgson, cobrador de ônibus, voltava do trabalho. 48 horas sem dormir. Precisava muito do dinheiro. Conciliava sua triste labuta e a faculdade de Letras. Chegou a casa esgotado. Lembrava-se de alguns transtornos no emprego. Um colega homossexual da universidade fora inicialmente humilhado por um velho, mas terminou por cima, humilhando o idoso. Foi uma alegria temporária, pois detestava ficar tanto tempo em um transporte coletivo repleto de pessoas infelizes.
Mal reconheceu a porta de sua residência. Adentrou o banheiro e sentiu a água gelada do chuveiro ferir seu corpo (precisava daquilo). Para esquecer o quanto sua vida era ruim, necessitava de um pouco do sofrimento noturno e purificador. Sai com a toalha na cintura pensando em Literatura e sofrimento. Chega à cama. Fecha os olhos e tenta libertar-se dos problemas, contudo, cansaço e problema não combinam com noite tranqüila. Sua cabeça furava o travesseiro em uma angústia pungente. Olhava as telhas e ouvia o barulho dos ratos. Pensava na desgraça que era sua vida. “Porra! Tanto conhecimento, tão pouco dinheiro!” A tosse da mãe viúva piorava a tentativa de descanso. “Se pelo menos eu sonhasse, mesmo sem dormir”.
Tentou relaxar. Tomou um gole de cachaça escondida embaixo da cama (a mãe não podia ver). Bebeu mais um gole. Sentiu as gilletes etílicas rasgarem sua garganta. O sofrimento trouxe-lhe certa paz. Tal tranqüilidade foi temporária, pois logo viu uma luz rosa ferindo-lhe as pupilas desgastadas pelas horas de trabalho.
Então, apareceram dois homens a sua frente. Um mais simpático e o outro com expressão grave. Tirante a cor dos ternos que trajavam ambos tinham igual aparência. Eram moreno-claros, tinham cabelos negros, usavam rabo-de-cavalo e barba. Além disso, eles demonstraram muita elegância. Aquela visão não o deixou impressionado, pois delírios noturnos eram constantes na vida de Bérgson. Certa vez, ele imaginou dois ratos conversando no teto sobre as dificuldades em conseguir comida em épocas chuvosas, também ouviu conselhos de um calango acerca de relacionamentos amorosos.  Portanto, viu aqueles distintos senhores como um paliativo efêmero para seu tédio.
O de branco falou primeiro:
-- Prio, cont maa voi...
Logo, o de preto interrompeu:
-- Por favor, Lu, fale em um idioma que o rapaz entenda! Pelo amor de Mim!
-- Desculpe-me, força do hábito. Eu sou Lúcifer, também conhecido como Diabo.
-- Pé preto, canhoto, coisa ruim, chifrudo... hehehe. Completou o senhor de preto.
-- Ah, não força! Respondeu meio irritado.
-- Eu sou Javé, também conhecido como Deus.
-- Salvador, Glorioso, e mais um monte de apelidos fanáticos idiotas! Completou o senhor de branco.
-- Não seja invejoso hehehe.
O rapaz olhava os dois com expressão estranha.
-- Ele deve estar achando esquisito ver Deus de preto e o Diabo de branco. Vamos trocar, não queremos ver o rapaz confuso.
-- Eu gosto de branco.
-- Deixa de ser chato!
-- Tá...
Fumacinha e pronto. Estavam de roupas trocadas.
-- Agora sim. Falou o senhor mais simpático. Você sabe, eu criei o mundo...
-- Não, ninguém sabe... Interrompe o mais sério, ironizando.
-- Como eu ia dizendo tudo de bom que há no mundo foi obra minha.
-- Discordo.
-- OK. “Tudo” foi força de expressão. É claro que muitas coisas boas foram processos de transformações.
-- Como o quê? Indagou o homem.
-- A humanidade, por exemplo. Eu fiz um modelo básico de vocês, aí foram mudando hábitos, cabelos, usaram roupas e o resto todo mundo sabe. É verdade que alguns Eu criei.
-- Eu também criei um monte.
-- Os meus são melhores.
-- São nada.
-- Claro que são.
-- Claro que não.
O homem impaciente interrompe:
-- Não é mais fácil se cada um citar exemplos?!
-- Boa ideia, respondeu o agora de branco com ironia. Eu criei a maioria dos papas, reis, imperadores, presidentes...
-- O homem, já meio fulo, interrompe novamente:
-- Você pode ser mais específico?!
-- Grande ideia, meu rapaz. Responde com sarcasmo, o senhor de branco. Depois, olha para o senhor de preto e sinaliza para ele começar.
-- Eu criei os prazeres. Até ele concorda que a vida era muito monótona. Antes disso só existia uma leve satisfação.
-- Ele está certo, contudo, a maioria das criações que deram prazer à humanidade foi obra minha.
-- Por exemplo? Indaga o homem.
-- Bach, Mozart, Villa-Lobos,...
-- Beethoven? Pergunta Bérgson.
-- Não. Esse foi uma grata surpresa.
-- O Hitler foi criação dele. Diz o senhor de preto com um olhar malicioso.
-- Isso é verdade!?
-- É...! Tinha grandes planos para ele. Sabe, Criei um ser humano muito inteligente. Meio esquisito, porém bastante carismático e grande estrategista. Além disso, completei sua personalidade com uma boa dose de consciência idealista. Ele deveria ser um líder para guiar a humanidade depois de tantas mazelas sociais. Mas... Como todo mundo sabe, deu tudo errado. Uma pena! Lamenta o senhor de branco.
-- Quer dizer que ele tá no céu!?
-- Claro que não! Ele desceu aos infernos em questão de segundos!
-- É possível a criação de um ir para o lado do outro?
-- Sim, responde o senhor de branco. John Lennon, por exemplo, foi criação minha e agora está com ele. Aponta o outro.
-- Comigo, não.
-- Claro que sim.
-- Claro que não.
-- Eu o condenei quando ele disse ser mais popular que Jesus.
-- Eu só sei que comigo ele não está.
-- Ah, é... Ele fez aquela musiquinha de natal e eu o perdoei... Não me lembrava mais.
-- Não repare. Ele condena e perdoa com muita facilidade. Mas, agora é minha vez...  O Jimi Hendrix foi obra minha! Fala orgulhoso, o senhor de preto.
-- Mas quando ele estava no auge eu o trouxe para mim.
-- Aquilo foi golpe baixo! Falou irritado o senhor de preto. Você não podia ter feito aquilo!
-- Claro que podia. Esqueceu que eu sou onipotente?
-- Você não é onipotente!
-- Força de expressão. Não posso tudo, mas posso fazer muita coisa. Sendo assim, levei o Jimi Hendrix para minha morada. Se você acha que ele era bom com a guitarra, deveria vê-lo com uma harpa.
-- Harpa?! Falou furioso o senhor de preto e continua. Você pôs o Jimi Hendrix pra tocar haaarrrpaaa?!
-- Ah... Você sabe... Eu sei que é meio clichê, mas é um instrumento mais celestial, divino. Os meus anjinhos não gostam muito de distorções sonoras. Preferem melodias mais limpinhas, mais... mais...
-- Divinas. Completou Bérgson.
O senhor de preto explodiu.  
-- Baroaaaaaaaateeee!!!
-- Baro... quê? Perguntou Bérgson.
-- Nada, é só um palavrão na língua dos anjos. Respondeu o senhor de branco.
-- Desde quando o Diabo é anjo?
-- Deixa pra lá, é uma longa história.
Enquanto isso o senhor de preto continuava aos gritos. Sua pele ficou em um tom rosado, seus dentes amarelaram e brilharam intensamente. Logo, sumiu em uma fumaça vermelha.
O senhor de branco observa, faz uma expressão de lamento e diz:
-- Uma pena, meu amigo, a nossa conversa ter ficado por aqui. Você teria aprendido muitas coisas valiosas...
-- Sou todo ouvidos...
-- Não dá. Não consigo ficar muito tempo em um lugar aqui na terra sem a presença dele.
Nesse momento ele começa a ficar transparente. Então se despede:
-- Até nunca, meu amigo.
Desaparece em suave e cinza fumaça.
-- Que é isso! Agora tenho alucinações até com Deus e o Diabo... Melhor tentar dormir. Dito isto, fecha os olhos e relaxa.
De súbito, porém, levanta rapidamente e indaga-se:
-- Ei, quem é Jimi Hendrix?!
FIM


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